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De Cor, De Fé, De Pé, por TUNINHO BORGES.

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A fotografia de Tuninho Borges escrevendo com luz as nossas raízes mais ancestrais…

José Eduardo Ferreira Santos

(Acervo da Laje)

De Cor, De Fé, De Pé, mostra fotográfica de Tuninho Borges, exibida no Foyer do Centro Cultural Plataforma, revela camadas de escritas capturadas a partir de um olhar que apreende a eterna novidade de ser quem somos, com nossas raízes ancestrais, cuja diversidade ainda não foi – e talvez jamais o seja – esgotada em formas de expor sua beleza e trazer à tona que somos mais do que os estereótipos afirmam, que o povo negro não é invisível, mesmo que teimem em querer deixar-nos nas tantas invisibilidades existentes.

Uma das formas de sair da invisibilidade é trazer à tona as nossas formas de expressão e a arte é uma das mais poderosas, porque expor é trazer a força do nome, do trabalho, da sensibilidade e do registro que para além de histórico se torna eterno enquanto acontecimento único, no qual temos o prazer de ver acontecer a beleza do nascimento de uma obra, sim, nascimento, porque antes foi gestada e vem ao mundo como sinal de que viver não basta e para viver é preciso existir e é preciso criar, ou seja, deixar sua marca como uma presença que nos surpreende e contribui para mostrar  – e montar – o mosaico da nossa diversidade cultural.

Fotografar é um exercício de coragem, um recorte do mundo dado por uma sensibilidade que se surpreende com este mundo.

Fotógrafos (as) carregam uma grande responsabilidade, que é aquela de capturar no “instante de um segundo” aquilo que os nossos olhos viram, mas não perceberam a grandeza do instante visto e vivido, no qual nada se repete e tudo é uma constante novidade.

E a arte, em todas as suas formas de expressão, chama a nossa atenção para o além da existência, dentro dela, porque a vida inteira é uma criação inequívoca, que teimamos em não ver.

Esse “não ver” indica que somos muitas vezes banais na escrita, no olhar e na sensibilidade.

Não sei bem o que está acontecendo com os seres humanos, mas me espanta essa incapacidade de sentir e de reverenciar a beleza que se apresenta aos seus olhos.

Quando um fotógrafo faz uma exposição é igualmente comovente para mim que ele venha na contramão da insensibilidade e nos chame, com sussurros ou gritando, para dizer: pare, olhe, veja…

Pare de correr e achar que a vida é essa banalidade e sucessão de acontecimentos muitas vezes sem sentido à qual nos entregamos sem agradecer, sem pensar na graça que temos em estar vivos…

Olhe com atenção a beleza de que está ao seu redor e você não viu ou possivelmente teve o pressentimento da beleza, mas não levou a sério e tudo se tornou como antes… Olhe atentamente e deixe jorrar o feixe de luz sobre a obra vista, com atenção, como elucida a filósofa Simone Weil. Olhe com atenção e dialogue comigo, com a obra, com você mesmo, sem indiferença ou preconceito.

Veja com olhos de primeira vez, com olhos infantis, filosóficos, poéticos, de alumbramento, um recorte do mundo. Mire detalhes, todos, simetrias, regras de terço, texturas, composição, cor, luz, personagens. Veja que a fotografia sempre revela o não dito, mas sentido ou talvez pressentido. Ver com olhos infantis faz com que nos maravilhemos com o visto.

Sempre me refiro à Bahia como o lugar no qual ainda há muitos mistérios a desvendar, por isso considero essa terra e sua gente nascentes da ancestralidade que se faz presente em nossas manifestações de fé, em cantos, histórias, personagens e na beleza dos nossos modos de vestir, andar, falar, e mesmo de se relacionar com esses mistérios de quem somos.

Há alguns anos venho pesquisando os artistas invisíveis da periferia de Salvador e uma das minhas tarefas é trazer à tona os artistas e suas obras como contribuição para que cada vez mais descubramos a “nascente da beleza” que está em lugares muitas vezes considerados improváveis, dados os tantos estigmas  que carregam.

Artistas que muito produziram e não tiveram o reconhecimento merecido em vida, mas não só o reconhecimento em si, mas o reconhecimento do nome e da obra, que são fundamentais para que o artista tenha a sua presença garantida – estudada, discutida, catalogada, difundida e exposta – no panteão daqueles que vieram a este mundo e deram a sua contribuição original, única, e que não se repetirá e servirá de inspiração para muitos que nos sucederão.

A Bahia é tão fascinante por conta de seu mistério, que conseguiu atrair centenas de fotógrafos de outros mares que aqui aportaram e fizeram dela, a Bahia, o esteio do seu labor.

Entre as esferas do mistério está aquela do sagrado, cujas fotos aqui delineiam de modo reverente a força de povos negros que na diáspora conseguiram manter na unidade da diversidade os traços fundamentais de sua identidade e que nos faz olhar para o Candomblé com o devido respeito na sua tradição oral, litúrgica e plástica, no sentido da beleza ritualística que carrega, sem desrespeitar seu mistério, como foi feito aqui neste bairro da Plataforma, em 1951 por José Medeiros, da Revista O Cruzeiro, no famoso e polêmico episódio das fotos do Terreiro da Mãe Riso da Plataforma, fato bem documento no livro Imagens do Sagrado, de Fernando de Tacca. Aqui, nesta exposição, o sagrado é visto como deve ser: respeitado e jamais revelado, pois neste território a beleza do registro está nas nuances e não na revelação em si, pois se assim o fosse deixaria de ser sagrado.

Mas, mais notável ainda é quando um filho da Bahia, da terra querida e amada consegue fazer na fotografia o que muitos outros tentaram: capturar o mistério da sua beleza, fé e ancestralidade.

Reencontrei Tuninho Borges hoje, neste dia 03 de novembro, depois de vir da Flica em Cachoeira e aceitei de pronto o convite para dirigir essas palavras sobre sua exposição aqui no Centro Cultural Plataforma por diversas razões:

  1. Um convite de Ana Vaneska, por indicação de Léo Vilas Verde, ao contrário de outros, não me faz ter pesadelos, mas saber que a cultura no Subúrbio Ferroviário de Salvador está sendo valorizada, difundida e ganhando novos espaços de projeção e poder, sim, poder real, mas também poder artístico, estético e simbólico de ocupação da arte de pessoas que carregam em suas trajetórias o mesmo sangue guerreiro dos que nos precederam e tanto sofreram e muitas vezes não puderam se expressar;
  2. Essa exposição pode abrir aqui espaço para que fotógrafos (as) queridos (as) que estão no ofício e na arte há muito tempo como o querido Seu Jorge Fotógrafo, Mila Souza, Daniele Rodrigues, Emilae Sena e Patric Costa, dentre outros, possam expor seus trabalhos e mostrar a dinâmica de novos olhares sobre o Subúrbio, a Cidade e seu povo;
  3. O circuito artístico em relação à fotografia está se expandido e esta Casa cumpre uma dívida histórica de contar a nossa história a partir de nós e não somente dos que vêm de fora, por isso também é necessário que o trabalho de Tuninho Borges e dos fotógrafos citados nesta apresentação disputem editais e circulem por outros espaços culturais, realizando uma troca de saberes, olhares, sensibilidades e técnicas fotográficas, mesmo sendo o expositor um “autodidata”, o que em arte implica um saber que nasce da técnica e da sensibilidade e por isso deve ser respeitado, acolhido e estudado, pois muitas vezes a Universidade da Vida supera, em muito, as universidades – sem desprezá-las, claro…

Teria muito mais para dizer, no entanto, devo resumir: aceitem o convite da exposição: parem, olhem, vejam e descubram-se neste universo De Cor, De Fé, De Pé, que o fotógrafo Tuninho Borges revela ao mundo nestas fotos aqui expostas.

Além disso, divulguem, incentivem e façam a parte que lhes, nos, cabe para que este artista seja visibilizado e reconhecido em vida.

 

 

 

 

 

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Sobre Ian Vitor

Ian Vitor
Desenvolvedor , WebDesigner e Fotografo do Platacity

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